O Brasil é hoje o maior exportador de soja, carne bovina, frango, açúcar e café do mundo. O agronegócio responde por cerca de 25% do PIB nacional e por mais de 40% das exportações. É, sem dúvida, um dos pilares da economia brasileira — e uma das histórias de sucesso mais impressionantes da agricultura mundial nas últimas décadas.
Mas essa história tem capítulos que raramente aparecem nos discursos do setor. O trabalho análogo à escravidão, que o Ministério do Trabalho continua resgatando em fazendas pelo país. O desmatamento ilegal que ainda ocorre na fronteira agrícola. A concentração fundiária que mantém o Brasil como um dos países com maior desigualdade na distribuição de terras do mundo. E a dependência de insumos importados — especialmente fertilizantes — que expõe o setor a choques externos.
A máquina que alimenta o mundo
A transformação do agronegócio brasileiro nas últimas quatro décadas é, em grande parte, resultado de investimentos em pesquisa e desenvolvimento. A Embrapa, empresa pública de pesquisa agropecuária, desenvolveu variedades de soja adaptadas ao cerrado brasileiro — um bioma que, até os anos 1970, era considerado impróprio para a agricultura intensiva. Hoje, o cerrado produz mais de 60% da soja brasileira.
A tecnologia também transformou a gestão das fazendas. Drones, sensores de solo, sistemas de irrigação de precisão e inteligência artificial são hoje parte do cotidiano das grandes propriedades. O Brasil tem algumas das fazendas mais tecnologicamente avançadas do mundo — e algumas das mais precárias.
"O agronegócio brasileiro é dois países em um. Tem o agro moderno, tecnológico, que compete com qualquer produtor do mundo. E tem o agro que ainda usa trabalho degradante e destrói floresta. A gente precisa ser honesto sobre os dois." — Marcos Sawyer, pesquisador do IMAZON
A questão fundiária que não se resolve
O Brasil tem o Gini fundiário — índice que mede a concentração da propriedade da terra — entre os mais altos do mundo. Os 1% maiores proprietários controlam mais de 45% da área agricultável do país. Enquanto isso, milhões de famílias de agricultores sem terra vivem em acampamentos do MST ou em assentamentos com infraestrutura precária.
A reforma agrária, que foi uma das principais bandeiras políticas do Brasil nas décadas de 1980 e 1990, praticamente saiu da agenda. O governo atual criou alguns assentamentos, mas o ritmo está muito abaixo do que seria necessário para atender a demanda. E a violência no campo — conflitos por terra, assassinatos de lideranças rurais — continua sendo uma realidade em vários estados.
O desafio da sustentabilidade
O mercado internacional está cada vez mais exigente em relação à sustentabilidade da produção agrícola. A União Europeia aprovou regulamentação que proíbe a importação de produtos associados ao desmatamento — o que afeta diretamente as exportações brasileiras de soja e carne bovina.
O setor está se adaptando, mas de forma desigual. As grandes tradings e os frigoríficos exportadores investem em rastreabilidade e certificação. Mas o elo mais fraco da cadeia — o pequeno produtor que vende para o intermediário — frequentemente não tem acesso às ferramentas necessárias para comprovar a origem sustentável de sua produção.
O agronegócio brasileiro tem capacidade para ser uma potência sustentável. Mas isso vai exigir mais do que discurso — vai exigir investimento, regulação eficiente e uma disposição honesta para enfrentar as contradições que ainda existem no setor.