Em março de 2020, quando o Brasil fechou as portas pela primeira vez, Carla Mendonça tinha 28 anos e um emprego estável em São Paulo. Cinco anos depois, ela ainda faz terapia duas vezes por semana. "A pandemia não acabou para mim", diz, sem dramatismo. "Eu aprendi a funcionar com a ansiedade, mas ela ainda está lá."

A história de Carla é comum. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil é o país com a maior prevalência de ansiedade do mundo — afetando cerca de 18,6 milhões de pessoas, ou quase 9% da população. A pandemia não criou essa realidade, mas a aprofundou de forma dramática. E o sistema público de saúde, já sobrecarregado antes de 2020, não conseguiu acompanhar o crescimento da demanda.

Os números que o governo não gosta de mostrar

O Ministério da Saúde não divulga dados consolidados sobre atendimentos de saúde mental no SUS. Pesquisadores precisam recorrer a dados fragmentados de diferentes fontes para montar um quadro aproximado da situação. O que esses dados mostram é preocupante: o número de internações psiquiátricas de emergência aumentou 34% entre 2020 e 2024. Os registros de automutilação entre adolescentes cresceram 67% no mesmo período.

A rede de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que é a espinha dorsal do atendimento em saúde mental no SUS, tem capacidade para atender cerca de 2 milhões de pessoas por ano. A demanda estimada é de mais de 10 milhões. A fila de espera em muitas cidades chega a seis meses.

"Nós temos um sistema que foi construído para a crise aguda, não para o cuidado continuado. E a pandemia criou uma demanda de cuidado continuado que o sistema simplesmente não estava preparado para absorver." — Dr. Sérgio Carvalho, psiquiatra e pesquisador da UNIFESP

A pandemia dentro da pandemia

Profissionais de saúde foram especialmente afetados. Médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem que trabalharam nas UTIs durante os picos da pandemia desenvolveram taxas alarmantes de burnout, depressão e transtorno de estresse pós-traumático. Um estudo da Fiocruz mostrou que 57% dos profissionais de saúde que atuaram na linha de frente da Covid-19 relataram sintomas de burnout em 2022 — e 32% ainda relatavam esses sintomas em 2024.

"Nós vimos coisas que não deveríamos ter visto. Fizemos escolhas que ninguém deveria ter que fazer", diz a enfermeira Patrícia Sousa, 41 anos, que trabalhou em uma UTI em Manaus durante o colapso do sistema de saúde do Amazonas em janeiro de 2021. Ela faz terapia há quatro anos. "Ainda tenho pesadelos."

O que o governo está fazendo — e o que não está

O governo federal lançou, em 2023, o Programa de Saúde Mental para o Brasil, com previsão de investimento de R$ 1,2 bilhão em quatro anos. O programa prevê a criação de novos CAPS, a contratação de psicólogos para a atenção básica e a expansão do serviço de teleatendimento em saúde mental.

Na prática, a execução tem sido lenta. Dos R$ 300 milhões previstos para 2023 e 2024, menos de 60% foram efetivamente gastos. Municípios menores, que mais precisam de apoio, têm dificuldade para acessar os recursos federais por falta de capacidade técnica para elaborar projetos.

Enquanto isso, o setor privado cresce. Plataformas de terapia online multiplicaram-se durante a pandemia e continuam expandindo. Mas o acesso é restrito a quem pode pagar — em média, R$ 150 a R$ 300 por sessão. Para os 40% da população que dependem exclusivamente do SUS, essa opção não existe.

O que pode mudar

Especialistas apontam algumas medidas que poderiam fazer diferença no curto prazo: a integração da saúde mental na atenção básica, com psicólogos e assistentes sociais nas Unidades Básicas de Saúde; a expansão do serviço de crise 24 horas; e a formação de agentes comunitários de saúde para identificar e encaminhar casos de sofrimento mental.

Mas todas essas medidas exigem investimento, planejamento e continuidade de políticas — três coisas que a saúde pública brasileira tem dificuldade histórica de garantir. A saúde mental, que sempre foi tratada como prioridade de segunda ordem, precisa de uma mudança de paradigma que vai além de programas e portarias.

Carla Mendonça, a jovem que ainda faz terapia cinco anos depois da pandemia, tem uma visão simples sobre o que precisa mudar. "A gente precisa parar de tratar saúde mental como luxo. Não é luxo. É saúde."